Beto sentou Pedro no sofá e disse que precisava conversar. Pedro ficou tenso. Achou que era doença, problema, alguma notícia ruim. Beto demorou para começar.
— Eu e sua mãe estamos fazendo os papéis do testamento.
— Tudo bem.
— E eu queria falar sobre o que a gente quer quando… partir.
Pedro respirou fundo.
— Pai, você está bem?
— Estou. Ninguém está doente. Mas a gente precisa falar sobre isso. Não queria deixar você sem saber.
Beto explicou: queria ser cremado, sem velório longo, sem flores. Queria uma cerimônia simples, com música boa, as pessoas que amava. Clarinha queria o mesmo.
— E o que a gente vai fazer com as cinzas?
— Joga no mar. Ou no pé de jabuticaba. A vida inteira a gente cuidou daquela árvore.
Pedro ficou em silêncio. Depois perguntou:
— Posso ficar com uma parte? Para ter perto?
— Pode. Fica com o que quiser.
A conversa durou uma hora. Falaram de músicas, de lugares, de pessoas que gostariam que estivessem presentes. Pedro foi ouvindo, anotando, processando.
— Obrigado por ter essa conversa — disse Pedro, no final. — Muita gente não tem coragem.
— Coragem? — Beto repetiu. — Coragem seria não falar e deixar você adivinhar. Isso é amor.
— Amor?
— Cuidar de quem fica. Mesmo depois que a gente vai.
Pedro abraçou o pai. Um abraço demorado, que dizia mais que palavras. Beto sentiu que tinha feito a coisa certa. Falar sobre a morte não tinha sido triste. Tinha sido um ato de amor.