Beto estava no restaurante com Clarinha quando o cardápio se recusou a colaborar. Ele esticou o braço, afastou o papel, apertou os olhos. Nada. As letras dançavam numa névoa cinzenta que ele se recusava a aceitar.
— Precisa de ajuda? — perguntou Clarinha, com um sorriso maroto.
— Não. A luz aqui é ruim.
— A luz está ótima. Você precisa de óculos.
— Não preciso de óculos coisa nenhuma.
Na semana seguinte, Beto foi ao oftalmologista depois de quase não enxergar o letreiro do ônibus. O diagnóstico veio com a frieza de quem repete aquilo o dia inteiro: "Presbiopia. Vista cansada. Óculos para leitura."
— O senhor pode escolher a armação — disse a atendente, mostrando uma fileira de óculos.
Beto escolheu o mais discreto possível. Preto, fino, quase invisível. No primeiro dia usando os óculos em público, ele se sentiu nu. Achava que todo mundo estava olhando. Guardava os óculos no bolso sempre que alguém se aproximava.
— Você parece um coruja usando aquilo — brincou Clarinha. — Fica bonito.
— Coruja é bicho feio.
— Coruja é bicho sábio.
Depois de uma semana, Beto percebeu que ninguém ligava para os óculos dele. O problemas estava na cabeça dele. E, mais importante: ele conseguia ler o cardápio sem esticar o braço. Conseguiu ler a bula do remédio. Conseguiu ler o jornal sem doer a vista.
— Sabe de uma coisa? — disse para Clarinha no café da manhã, limpando as lentes com a barra da camisa. — Esses óculos são a melhor coisa que me aconteceu esse ano.
— Eu te falei.
— Você sempre fala. Uma hora eu aprendo.