Clarinha abriu a caixa de sapatos onde guardava fotos antigas e percebeu que o tempo tinha agido. As fotos estavam amareladas, algumas grudadas, outras desbotadas. Lá estavam Beto e ela no casamento, Pedro recém-nascido, o primeiro Natal na casa nova.
— Isso aqui precisa de organização — disse para Beto.
— Joga tudo num álbum digital.
— Não é a mesma coisa. Digital a gente não folheia. Digital a gente perde quando o celular quebra.
Ela comprou dois álbuns grandes. Um para as fotos antigas, outro para as novas. Separou por década. Escreveu legendas com caneta especial: "Beto e Clarinha, 1988, lua de mel", "Pedro, 3 meses, primeira praia", "A casa nova, 1992".
— Olha essa — Beto pegou uma foto. — O dia que a gente comprou o carro.
— Vermelho. Você parecia um garoto.
— Eu era um garoto.
— Não. Você era um homem que ainda ia ser pai.
Eles passaram a tarde inteira organizando. Cada foto vinha com uma história. Algumas arrancavam risadas. Outras, lágrimas. A foto da mãe de Clarinha, que já tinha partido. A foto do pai de Beto, no quintal, com o chapéu de palha.
— A gente viveu, não viveu? — Clarinha disse.
— Viveu. E ainda está vivendo.
— E essas fotos são a prova.
Ela fechou o álbum. Colocou na estante da sala, ao lado do livro de receitas. Quando Miguel viesse visitar, ela mostraria. "Olha, esse aqui é seu pai quando era bebê." E o tempo continuaria vivo nas páginas do álbum.