Como lidar com o ciúme dos avós pelo neto?

Beto

Beto sentiu um aperto no peito quando Miguel chamou o outro avô de "vovô favorito". Era uma frase inocente de criança, mas doeu. Ele passou o resto do dia calado, remoendo. Clarinha percebeu.

— O que foi?

— Nada.

— O Miguel te chama de vovô favorito?

— Não.

— Aí está.

Beto suspirou.

— Ele passou o fim de semana na casa dos outros avós. Voltou falando do brinquedo que ganharam, do passeio que fizeram. Com a gente, ele só vê televisão.

— A gente não compete, Beto.

— Eu sei. Mas parece que eles são mais divertidos.

— Eles são diferentes. Não melhores.

Beto pensou nisso. Os outros avós moravam numa casa com quintal, tinham mais energia, faziam programas diferentes. Ele e Clarinha eram mais caseiros. Mas também tinham coisas especiais: a oficina de marcenaria, o bolo de fubá, as histórias do tempo em que Beto era criança.

— A gente não precisa ser o favorito — disse Clarinha. — A gente precisa ser presente.

No sábado, Beto chamou Miguel para a oficina. Mostrou como se faz um carrinho de madeira.

— Vovô, você que faz isso? — perguntou o menino, encantado.

— Faço. Quer aprender?

— Quero!

Miguel passou a tarde inteira na oficina. Não ganhou brinquedo caro, não foi a parque nenhum. Mas no dia seguinte, quando a mãe perguntou qual era o avô favorito, ele respondeu: "Os dois."

Beto ouviu do quarto e sorriu. Não precisava ser o favorito. Precisava ser dele.