Clarinha percebeu que as receitas da família estavam se perdendo. O bolo de fubá da avó, a galinhada da tia, o arroz doce da mãe — ninguém sabia fazer igual. Quando Miguel nasceu, ela decidiu que era hora de registrar.
— Vou fazer um livro de receitas da família — anunciou.
— Livro de receitas? — Beto estranhou. — Isso não é coisa de internet?
— Internet tem receita. Não tem história.
Clarinha visitou a mãe, que já estava com a memória fraca, e passou uma tarde na cozinha. A mãe ensinou o arroz doce enquanto Clarinha anotava. Não era só uma receita — era um ritual. "Tem que mexer sempre no mesmo sentido", dizia a mãe. "Se mexer para os dois lados, talha."
— Por que sempre no mesmo sentido? — perguntou Clarinha.
— Porque sua avó dizia que mexia assim. E a avó dela também.
Clarinha riu. Anotou tudo: ingredientes, modos de fazer, histórias. O caderno cresceu. Cada receita vinha com uma memória. O bolo de cenoura da tia Luísa. O pão de queijo da sogra. O doce de leite que Beto aprendeu com o pai.
Quando o livro ficou pronto, Clarinha passou a limpo num caderno bonito e deu de presente para Pedro e Marina.
— Isso é um tesouro — disse Marina, folheando.
— Mais do que isso — respondeu Clarinha. — É a nossa história escrita em comida.
Miguel, pequeno ainda, apontou para uma foto do bolo de fubá.
— Vó, faz esse?
— Faço. E um dia você vai aprender.