Beto observava Pedro com o neto Miguel e não reconhecia o filho. O menino desengonçado que jogava videogame até tarde agora dava banho no bebê com uma segurança que Beto nunca teve. Pedro trocava fralda, fazia papinha, acordava de madrugada sem reclamar.
— Você é um bom pai — Beto disse, num domingo à tarde.
Pedro olhou surpreso.
— Obrigado.
— Sério. Você é melhor do que eu fui.
— Pai, você foi ótimo.
— Fui o que eu pude. Mas você é mais paciente. Mais presente.
Beto lembrava dos próprios erros. Das vezes que chegou tarde do trabalho, dos fins de semana que passou no escritório, dos aniversários que quase perdeu. Não que tivesse sido um mau pai — mas via em Pedro o que poderia ter sido.
— A gente aprende com os erros dos pais — disse Pedro. — Você me ensinou o que fazer e o que não fazer.
— Os dois?
— Os dois. Os acertos viraram exemplo. Os erros viraram lição. Os dois me fizeram o pai que eu sou.
Beto engoliu seco.
— Então não foi tão mal assim?
— Não foi mal, pai. Foi humano.
Miguel começou a chorar no quarto. Pedro levantou num pulo e foi atender. Beto ficou sentado, olhando a cena. O filho pegava o neto no colo com a mesma delicadeza com que Beto pegava objetos frágeis. Só que aquele não era frágil. Era forte. Como o pai. Como o avô.
— A vida é boa — Beto murmurou, sozinho na sala.