Clarinha queria o Natal perfeito. Todos juntos: Pedro, a esposa Marina, o neto Miguel, Beto, ela. Mas a organização estava um caos. Pedro queria passar o Natal na casa da sogra. Beto queria algo simples. E ela queria que todos estivessem satisfeitos — o que era impossível.
— Vamos fazer cada um na sua casa? — sugeriu Beto.
— Isso é desistir.
— Isso é respeitar.
Clarinha ficou dividida. Lembrou dos Natais da infância, quando a casa da avó ficava cheia, a mesa comprida, as crianças correndo, os adultos rindo. Queria aquilo de volta. Mas o mundo tinha mudado. As famílias não moravam mais perto. As sogras competiam pelas datas.
— E se a gente fizer no sábado antes do Natal? — propôs Marina. — Aí todo mundo pode.
— No sábado antes não é Natal — Clarinha respondeu, meio fria.
— É quase. E todo mundo vem.
Clarinha cedeu. No sábado, a casa ficou cheia. Pedro trouxe a ceia. Marina fez a sobremesa. Beto assou o peru. Clarinha arrumou a mesa com a toalha bordada da mãe. O neto Miguel dormia no berço ao lado.
— Não é Natal — ela disse, levantando o copo. — Mas parece.
— Natal é quando a gente está junto — respondeu Pedro.
— Desde quando você ficou sábio?
— Desde que virei pai.
Todos riram. Clarinha olhou para a mesa, para os rostos que amava, e entendeu que o Natal perfeito não existe. Existe o Natal possível. E o possível, quando tem amor, é mais do que suficiente.