O telefone tocou às três da manhã. Beto atendeu com o coração na mão. Era Pedro: "Pai, a Marina está com contrações. Vamos para a maternidade." Beto acordou Clarinha e os dois foram para o hospital mais rápido que podiam. Na sala de espera, Beto sentiu o tempo passar devagar.
— Você está nervoso? — perguntou Clarinha.
— Mais do que quando Pedro nasceu.
— Eu também.
O parto foi longo. Beto andou de um lado para o outro, tomou três cafés, leu todas as revistas da sala de espera. Quando Pedro apareceu com o jaleco azul e os olhos marejados, Beto soube que tinha dado certo.
— Nasceu — disse Pedro. — É um menino. Três quilos e duzentos.
Beto segurou o neto pela primeira vez e sentiu algo que não esperava. Era amor, sim, mas diferente. Mais calmo. Mais profundo. Era como se o coração dele tivesse crescido para incluir mais um.
— Olha só — ele murmurou, com o bebê nos braços. — Você chegou.
— Vovô — disse Clarinha, encostada nele.
— Vovô. Soa estranho.
— Vai se acostumar.
— Não quero me acostumar. Quero guardar esse momento.
Ele ficou ali, com o neto no colo, sentindo o peso pequeno e o calor do corpo minúsculo. No dia seguinte, comprou um caderno. Começou a escrever cartas para o neto — para ele ler quando crescesse. Queria que ele soubesse como foi o primeiro encontro, como o avô tremeu, como o amor chegou sem pedir licença.