Beto nunca quis falar sobre testamento. Achava que era coisa de gente rica ou de quem estava à beira da morte. Mas depois de ver a briga dos vizinhos pela herança, decidiu que era melhor tratar do assunto enquanto todos estavam vivos e bem.
— Vamos fazer testamento? — perguntou para Clarinha.
— Testamento? A gente não tem quase nada.
— A gente tem a casa, o carro, as aplicações. E tem o Pedro. Se a gente não deixar claro, ele vai passar pelo que os vizinhos passaram.
Clarinha concordou. Marcaram um advogado especializado em direito sucessório. O advogado explicou que testamento não é só para ricos — é para quem quer evitar conflito entre os herdeiros.
— A legislação brasileira garante 50% dos bens aos herdeiros necessários — explicou o advogado. — Os outros 50% são de livre disposição.
— Isso significa que a gente pode escolher?
— Dentro dos limites legais, sim.
Beto e Clarinha decidiram: tudo que tinham iria para Pedro, em partes iguais. Mas Beto queria deixar um relógio antigo do pai dele para o irmão Carlos. E Clarinha queria que suas joias fossem para a futura nora.
— É estranho pensar na própria morte — Beto disse, saindo do cartório.
— Não é sobre a morte — respondeu Clarinha. — É sobre cuidar de quem fica. Sobre não deixar briga.
— Você sempre dá um jeito de transformar coisa triste em coisa bonita.
— Não é bonito. É necessário.
Beto guardou o documento na gaveta. Dormiu mais leve naquela noite. O testamento não era sobre o fim. Era sobre o cuidado com o começo dos que ficam.