Como aceitar as mudanças físicas do envelhecimento?

Clarinha

Clarinha estava no salão de beleza quando a cabeleireira fez a pergunta que ela vinha evitando: "Quer pintar os brancos hoje?" Ela olhou no espelho vinte anos de cabelo pintado, as raízes sempre aparecendo no décimo quinto dia. Naquela manhã, ao se arrumar, tinha notado uma ruga nova ao lado da boca. Uma linha fina, mas que não estava ali no mês passado.

— Não — respondeu, surpreendendo a si mesma. — Deixa assim.

A cabeleireira hesitou.

— Tem certeza, dona Clarinha?

— Tenho. Quero ver como fica.

Ela passou a mão nos fios grisalhos. Sempre achou que cabelo branco era coisa de mulher mais velha. Mas agora ela era a mulher mais velha. E estava tudo bem.

Quando chegou em casa, Beto a olhou por um instante diferente.

— Cortou o cabelo?

— Não. Parei de pintar.

Ele se aproximou, tocou os fios grisalhos com a ponta dos dedos.

— Ficou bonito.

— Sério?

— Sério. Você parece… você.

Clarinha sentiu um aperto no peito. Durante anos, ela se escondeu atrás de tintura, cremes e roupas que tentavam disfarçar a idade. Naquela noite, diante do espelho, encarou as rugas, os cabelos brancos e a pele mais fina. Não gostou de tudo que viu, mas reconheceu a mulher ali.

— Não vou mentir que é fácil — disse para Beto na cama. — Mas é verdade. E verdade é mais bonito que disfarce.

— Você continua linda — ele respondeu.

E ela acreditou.