Clarinha olhou para o extrato bancário e sentiu o estômago embrulhar. Faltava uma semana para o fim do mês e a conta já estava no vermelho. As despesas médicas tinham estourado o orçamento. Ela não sabia como ia pagar o condomínio.
— A gente precisa de um plano B — disse para Beto.
— Plano B? A gente já cortou quase tudo.
— Então a gente corta mais.
Ela fez uma lista do que era essencial e do que era supérfluo. A assinatura da TV a cabo foi cortada. O plano de internet foi reduzido. O carro, que usavam duas vezes por semana, foi vendido. Passaram a usar transporte público.
— É humilhante — Beto reclamou no primeiro dia no ônibus.
— Não é humilhante. É inteligente. Enquanto a gente estiver apertado, a gente se adapta.
Clarinha descobriu programas de desconto para idosos. A farmácia do bairro dava 20% de desconto para maiores de 60 anos. O mercado tinha dia de promoção para a terceira idade. O transporte público era gratuito.
— A gente não precisa de tudo que a gente acha que precisa — ela disse.
No fim do mês, a conta fechou. Apertada, mas fechou.
— A gente passou por isso juntos — Beto disse.
— Sempre juntos. E da próxima vez, a gente faz melhor.
— Como?
— Economiza antes. Não espera apertar para cortar.
— Quando a gente aprende isso?
— Agora.
A lição ficou. Clarinha passou a fazer um orçamento preventivo todo mês, com margem para imprevistos. A vida não ficou mais fácil, mas ficou mais previsível. E previsível, para ela, era sinônimo de paz.