Luísa chegou na casa de Clarinha com uma pasta cheia de papéis. "Preciso de ajuda", disse. Ela estava perto de se aposentar e o INSS pedia documentos que ela nem sabia que existiam. Carteira de trabalho, extratos do CNIS, comprovantes de contribuição, certidão de casamento, certidões de nascimento dos filhos.
— É tanta coisa que eu desisti no meio — Luísa confessou.
— A gente faz junto — disse Clarinha, que já tinha passado por aquilo.
Separaram os documentos por década. Luísa tinha trabalhado em cinco empresas diferentes, três delas já fechadas. As anotações na carteira estavam incompletas.
— Como comprovar o tempo que trabalhei numa empresa que não existe mais?
— Com provas indiretas — explicou Clarinha. — Holerites antigos, contratos, testemunhas, até fotos com uniforme podem ajudar. O INSS aceita justificação administrativa.
Luísa passou uma tarde vasculhando caixas antigas. Encontrou holerites de vinte anos atrás, contratos de trabalho amarelados e uma foto do crachá da primeira empresa. Com cada documento, sentia que estava montando o quebra-cabeça da própria vida profissional.
No INSS, o atendente conferiu tudo.
— A senhora tem 35 anos de contribuição. Pode se aposentar com valor integral.
Luísa sentiu um alívio tão grande que quase chorou.
— Não é só papelada — disse para Clarinha depois. — É a prova de que a gente existiu, trabalhou, contribuiu. A aposentadoria não é um favor. É um direito.
— Direito conquistado — completou Clarinha. — Papel por papel, ano por ano.