Beto passou 25 anos numa casa de três quartos com quintal, lavanderia e garagem para dois carros. Quando se mudou para um apartamento de dois quartos, sentiu que as paredes estavam fechando sobre ele.
— Isso é uma gaiola — disse no primeiro dia.
— Isso é liberdade — respondeu Clarinha. — Não tem quintal para varrer, não tem telhado para consertar, não tem escada para subir.
— Mas é pequeno demais.
— A gente é que estava grande demais para a casa.
Beto demorou a se adaptar. Bateu com o ombro no batente da porta do banheiro. Reclamou que a cozinha era apertada. Guardou ferramentas no quarto de dormir porque não tinha garagem.
Até o dia em que ele estava sentado na sacada, tomando café, vendo o movimento da rua lá embaixo. Clarinha estava ao lado, lendo um livro. O sol da manhã entrava sem pedir licença.
— Sabe de uma coisa? — ele disse.
— O quê?
— A vista é bonita.
— É.
— E não tem cerca para pintar.
— Nem grama para cortar.
— Nem portão para abrir.
Clarinha fechou o livro.
— A gente não perdeu espaço. A gente ganhou tempo.
Beto olhou para ela. Na casa grande, cada final de semana era uma lista interminável de reparos, limpeza e manutenção. No apartamento, o final de semana era livre.
— O que a gente faz sábado? — perguntou.
— O que a gente quiser.
— Isso é novo.
— Isso é a vida que a gente merece.
Ele sorriu. O apartamento não era pequeno demais. O sonho é que tinha sido grande demais.