Como lidar com a saudade dos filhos que saíram de casa?

Beto

Beto sentia falta do barulho. Da televisão ligada na sala enquanto Pedro jogava videogame. Do telefone tocando. Da porta batendo. Do "pai, tem comida?" no meio da noite. O silêncio do apartamento novo pesava.

— Você está diferente — Clarinha notou.

— Estou bem.

— Não está. Você passa os dias na oficina e quando sobe, fica olhando o celular esperando alguém ligar.

Beto guardou o celular no bolso.

— Pedro liga no domingo. Mas eu queria que ele ligasse mais.

— Ele tem a vida dele.

— Eu sei. Mas dói.

Clarinha sugeriu criar uma tradição: o jantar de domingo. Todo domingo, Pedro e a namorada seriam convidados para almoçar. Não precisava ser sofisticado, só um encontro.

No primeiro domingo, Pedro chegou com uma lasanha comprada.

— Não deu tempo de fazer — ele se desculpou.

— Não tem problema — Beto respondeu. — Senta.

Aos poucos, o jantar de domingo virou sagrado. Pedro trazia a namorada, depois a esposa, depois o filho pequeno. A casa enchia. Beto cozinhava churrasco no final de semana. Aos poucos, a dor da ausência se transformou na alegria dos encontros.

— A gente não perde os filhos — disse Beto, num desses domingos, com o neto no colo. — A gente ganha novos jeitos de amar.

Clarinha apertou a mão dele por baixo da mesa. O barulho tinha voltado. Era diferente, mas era barulho. Era vida.