Beto imaginou a aposentadoria como um paraíso. Acordar tarde, sem pressa, sem chefe, sem reunião. No primeiro dia, ele dormiu até as dez. No segundo, até as onze. No terceiro, acordou às nove sentindo uma angústia no peito.
— O que você tem? — perguntou Clarinha.
— Não sei. Uma sensação estranha.
— Falta do trabalho?
— Não. Falta de… propósito.
Beto passou uma semana andando pela casa, arrumando gavetas, assistindo televisão, sentindo que o tempo escorria pelos dedos sem deixar nada. A aposentadoria que ele idealizou era um vazio.
— Você precisa de um hobby — disse Clarinha.
— Hobby é coisa de quem tem o que fazer.
— Você é quem não tem o que fazer. Hobby é exatamente o que você precisa.
Ela lembrou que Beto gostava de marcenaria quando jovem. Na garagem do prédio novo, ele montou uma pequena oficina. Começou fazendo uma estante simples. Depois uma cadeira. Depois um berço para o neto que estava por vir.
— Você está feliz? — perguntou Clarinha, vendo ele lixar uma tábua.
— Estou. Não sabia que fazer coisas com as mãos ia preencher esse buraco.
— O buraco não era a falta de trabalho. Era a falta de criar.
Beto passou o pano na madeira e sorriu. A aposentadoria não era o fim da vida ativa. Era o começo de uma vida onde ele escolhia o que fazer. E ele escolheu fazer coisas bonitas com as próprias mãos.