Como decidir vender a casa da família?

Clarinha

A casa onde Clarinha morou por 25 anos era muita coisa. Era onde Pedro deu os primeiros passos, onde as festas de Natal aconteciam, onde cada parede tinha uma história. Mas com os filhos crescidos e a manutenção pesando, Beto sugeriu vender.

— Vender a casa? — Clarinha arregalou os olhos. — A gente construiu tudo aqui.

— A gente construiu a vida. A casa é só o endereço.

— Não é só o endereço. É o pé de jabuticaba que plantamos quando Pedro nasceu. É a marca de lápis na parede da cozinha. É a janela que você pintou de azul.

Beto suspirou.

— É também o telhado que precisa de reforma, a caixa d'água que vai estourar e a conta de luz que só aumenta.

Clarinha passou uma tarde andando pela casa. Tocou em cada parede, abriu cada gaveta. No quarto de Pedro, encontrou um bilhete debaixo do guarda-roupa: "Mãe, obrigado por tudo. Te amo." Ele devia ter uns 12 anos.

Ela sentou no chão e chorou.

— A gente não está vendendo a memória — disse Beto, sentando ao lado. — A gente está vendendo a manutenção. A memória a gente leva.

— Leva para onde?

— Para um apartamento menor. Mais perto do centro. Sem quintal para cuidar. A gente vai ter mais tempo.

— E o pé de jabuticaba?

— A gente planta outro.

Clarinha concordou em colocar a casa à venda. No dia da mudança, ela arrancou um galho do pé de jabuticaba e plantou num vaso. Levou no colo até o apartamento novo.

— A casa não é a parede — disse para Beto, colocando o vaso na sacada. — A casa é a gente.