Beto acordou na manhã do seu aniversário de 50 anos com um silêncio diferente na casa. Clarinha tinha preparado um café da manhã caprichado, mas ele mal conseguiu comer. No banheiro, ao se olhar no espelho, notou os fios brancos nas têmporas que antes eram apenas um ou dois. Agora eram muitos. Passou a mão no rosto e viu sulcos que não estavam lá cinco anos atrás.
— Cinquenta anos — murmurou para si mesmo. — Como cheguei aqui tão rápido?
Clarinha apareceu na porta do banheiro com uma xícara de café.
— Feliz aniversário, meu velho — disse ela, com um sorriso que misturava carinho e provocação.
— Velho é que é bom — respondeu Beto, forçando um sorriso.
No trabalho, os colegas mais jovens o chamavam de "senhor" e ele percebia que o respeito vinha acompanhado de uma distância que antes não existia. Durante uma reunião, um estagiário de 22 anos perguntou: "Como o senhor acha que a gente deveria abordar isso?" Beto sentiu o peso da palavra "senhor" como nunca.
— Não sou velho — pensou. — Só tenho mais experiência.
Na volta para casa, ele parou na frente do espelho do elevador. Olhou para o próprio reflexo e tentou se ver com outros olhos. Não era um velho. Era um homem de 50 anos com a vida pela metade. Lembrou do que seu pai dizia: "A idade chega primeiro nos olhos da gente do que no corpo."
— Cabelo branco não é fim da linha — ele disse em voz alta.
Em casa, Clarinha esperava com um jantar íntimo. Ela levantou um copo de vinho.
— Para os próximos 50.
— Isso é ameaça ou promessa? — brincou Beto.
— Os dois.
Ele riu. Pela primeira vez no dia, a idade não pesou.