Beto entrou na loja de ferramentas e sentiu a adrenalina. Prateleiras de furadeiras, parafusadeiras, serras, lixadeiras, esmerilhadeiras, tudo brilhando, cheirando a plástico novo e potência.
— Só vou dar uma olhada — disse para Clarinha.
Duas horas depois, ele saiu com uma serra circular, uma lixadeira orbital e um kit de 50 brocas. Clarinha olhou para as sacolas.
— Beto, você já tem duas furadeiras.
— Mas essa aqui é de impacto! A outra é só parafusadeira.
— Você comprou serra circular. O que vai serrar?
— Eu… vou construir uma estante.
Nunca construiu a estante. A serra ficou na caixa, na garagem. A lixadeira, idem. Beto colecionava ferramentas como quem coleciona livros que nunca lê.
— Ferramenta boa é ferramenta usada — disse Seu Antônio. — Não adianta ter a melhor furadeira do mundo se você só pendura quadro.
— Mas é tão bonita…
— O negócio é o seguinte: compra a ferramenta quando tiver o serviço. Não compra antes. Senão vira enfeite de parede.
Beto tentou se justificar, mas sabia que Seu Antônio tinha razão. Ele vendeu a serra circular (nunca usada) e a lixadeira (usada uma vez). Ficou só com a furadeira de impacto e a parafusadeira — as que realmente usava.
— A regra é: se você não tem um projeto concreto para usar a ferramenta nos próximos 30 dias, não compra.
Beto concordou. Mas quando passou na frente da loja de ferramentas na semana seguinte, desviou o olhar e acelerou o passo. Vícios são difíceis de largar.