Clarinha acordou, espirrou, e sentiu a poeira nos dentes. A reforma do quarto tinha começado e a casa inteira estava coberta por uma camada fina de pó de cimento, gesso e serragem.
— Não adianta limpar, suja de novo em 30 minutos — reclamou ela.
— Tem que vedar melhor — disse Pedro, que chegou para ajudar.
Pedro ensinou o protocolo anti-poeira: usar lonas plásticas grossas e fita crepe larga para vedar portas e vãos. Colocar panos molhados na fresta debaixo das portas. Instalar um ventilador virado para fora em uma janela para criar pressão negativa.
— A poeira segue o fluxo de ar. Se você cria uma saída pela janela, ela vai para lá em vez de invadir o resto da casa.
Clarinha comprou um aspirador com filtro HEPA, que retém partículas finas. Passava duas vezes por dia no corredor e nos cômodos vizinhos. Também cobriu os móveis com lençóis velhos e os eletrônicos com sacos plásticos.
— E a roupa no armário? — perguntou ela.
— Tira do armário e coloca em sacos a vácuo ou em malas fechadas. Senão vai ficar com cheiro de obra.
A poeira continuou, mas em quantidade muito menor. Clarinha aceitou que obra tem poeira — não tem como evitar 100%. Mas com as barreiras certas, o sofrimento reduz pela metade.
No fim da reforma, ela passou um final de semana inteiro limpando cada canto, cada superfície. Quando terminou, a casa estava imaculada.
— Sabia que dá para ouvir o silêncio? — disse ela. — O silêncio de uma casa sem obra.