A caixa chegou. Grande, pesada, com um desenho de uma estante na lateral. Beto abriu animado. Dentro: 47 peças de MDF, 182 parafusos, buchas, cavilhas, e um manual de instruções que parecia um origami desdobrado.
— É só seguir o passo a passo — disse Clarinha, otimista.
Duas horas depois, a sala parecia um campo de batalha. Peças espalhadas, parafusos misturados, Beto suando, e a estante com uma prateleira torta.
— Esse manual não explica nada! — reclamou Beto.
— Você está montando a prateleira D na posição errada — disse Clarinha, lendo o manual. — A peça D é a de cima. Você colocou embaixo.
Beto desmontou metade e recomeçou. Dessa vez, ele seguiu uma dica que viu num fórum: separar as peças por tamanho antes de começar, ler o manual inteiro antes de parafusar a primeira peça, e usar uma furadeira com torque regulado para não espanar a cabeça dos parafusos.
— E a dica de ouro — disse Clarinha — é montar sobre um carpete ou papelão para não riscar as peças.
Depois de quatro horas, a estante estava de pé. Reta, firme, todas as prateleiras no lugar. Eles colocaram os livros, os porta-retratos, um vaso.
— Conseguimos — disse Beto, exausto.
— Conseguimos — repetiu Clarinha. — Mas da próxima vez, a gente paga o montador.
Beto não respondeu. Estava dormindo no sofá, com uma chave Allen ainda na mão.