O carro do Carlos não estava quebrado. Funcionava perfeitamente. Só estava velho — quatorze anos, mais de duzentos mil quilômetros, sem ar-condicionado que gelava de verdade, com um rádio que só pegava FM, e um porta-malas que mal cabia o carrinho do Augusto. Ela queria trocar. Ele dizia: "O carro está funcionando, por que trocar?" A resposta dela era: "Porque a gente merece um carro mais confortável." Ele respondia: "Conforto não paga conta." E assim a gente girava em círculos.
Um dia, parou e pensou: por que ele resiste tanto? Não era teimosia. era medo. Medo de assumir mais uma dívida, medo de trocar o certo pelo duvidoso, medo de se endividar por algo que não era urgente. Em vez de insistir no argumento do conforto, mudou de abordagem. Ela se sentou com ele e falou: "Amor, não quero gastar mais do que a gente pode. Mas quero que a gente pesquise. Se achar um carro seminovo com parcelas que caibam no orçamento, a gente troca. Se não achar, a gente fica com esse mais um ano." Ele topou. Pesquisamos, achamos um carro três anos de usa com parcelas que cabiam. Ele viu que não era um luxo — era uma troca planejada. Luísa entendeu que o jeito certo de conversar sobre trocar de carro não é apelar para o desejo — é apelar para o planejamento. Quem resiste à troca geralmente não resiste ao carro novo — resiste ao risco financeiro. Quando ela mostrou que o risco era calculado, a resistência diminuiu. Trocar de carro não precisou ser briga — foi plano.