Luísa gosta de silêncio no carro. Gosta de ouvir o motor, pensar na vida, observar a paisagem. Carlos, não. Ele precisa de estímulo o tempo todo. Rádio ligado, podcast, música alta. No início do casamento, era uma guerra toda vez que entravam no carro juntos. Ele ligava o rádio no primeiro minuto. Ela desligava no segundo. Ele ligava de novo. Ela desligava de novo. Até que um dia, ele disse: "Você não gosta de nada que eu gosto." E ela respondeu: "Você não consegue ficar quieto um minuto?" A viagem de vinte minutos até a casa da mãe dela era um campo de batalha sonoro.
Um dia, depois de uma briga feia por causa de uma playlist, eles pararam o carro no acostamento e resolveram conversar de verdade. Luísa descobriu que para ele, o silêncio era desconfortável — ele sentia que algo estava errado, que eles estavam de mal. Para ela, o barulho era agressivo — ela não conseguia relaxar. A solução foi um acordo: na ida, ele escolhe a playlist. Na volta, ela escolhe o silêncio ou uma música ambiente baixa. Em viagens longas, eles alternam a cada hora. Hoje, nem pensam mais nisso — o combinado virou rotina. Luísa entendeu que resolver briga sobre barulho no carro não é provar quem está certo — é entender o que o barulho significa para cada um. Pra ele, barulho é conexão. Pra ela, silêncio é paz. Nenhum dos dois está errado. Eles só precisavam de um revezamento.