Qual o jeito certo de lidar com o medo de dirigir à noite?

Luísa

Ela sempre dirigiu bem durante o dia, mas quando o sol se punha, algo mudava nela. As luzes dos outros carros a ofuscavam, as ruas pareciam diferentes, os pedestres surgiam do nada, e ela tinha a sensação de que ia bater a qualquer momento. Evitava sair à noite sempre que podia. Quando precisava, pedia para o Carlos dirigir. No começo ele não reclamava, mas depois de um tempo começou a perguntar: "Luísa, você vai ficar dependente de mim para sempre?" Ela respondia com raiva: "Não é dependência, é precaução." Mas no fundo sabia que era medo mesmo.

O estopim foi quando o Carlos precisou viajar a trabalho e ela tinha que buscar o Augusto na casa da mãe dela às nove da noite. Entrou no carro tremendo. Foi devagar, com os faróis altos ligados (o que cegava os outros motoristas), freiando em cada esquina. Chegou ao destino com as mãos suando no volante e uma taquicardia que não passou nem com água. No dia seguinte, marcou uma consulta com um oftalmologista, porque suspeitava que o problema podia ser visual. E era: ela tinha um grau leve de astigmatismo que piorava a visão noturna. Comprou óculos específicos para dirigir à noite, com antirreflexo e lente que reduz o ofuscamento. A diferença foi drástica. As luzes pararam de cegá-la. As placas ficaram nítidas. As ruas voltaram a fazer sentido. Além dos óculos, fez alguns treinos: começou dirigindo em ruas iluminadas do bairro, depois avenidas movimentadas, e só depois encarou estrada escura. Luísa descobriu que lidar com o medo de dirigir à noite não é forçar a barra e enfrentar tudo de uma vez — é investigar a causa. Às vezes o medo tem nome: cansaço visual, grau errado, farol desregulado. Quando a gente trata a causa, o medo diminui sozinho. E quando não diminui de todo, a gente aprende a respeitar o próprio limite.