No apagar das luzes de uma negociação, o vendedor disse "o interior tá impecável, só dar uma lavada". Entrei no carro, olhei rápido e vi que parecia ok. Assinei. Só depois que peguei o carro reparei no detalhe que mudou tudo: o banco do motorista tinha um rasgo no meio do assento, escondido por uma capa de carro preta que o vendedor tinha colocado de propósito. O carpete do motorista estava encharcado — seco por cima, mas molhado por baixo, cheirando a mofo. E o teto tinha uma mancha de infiltração que ele disfarçou com um produto de limpeza.
Hoje, peço pra ver o interior em plena luz do dia, de preferência com o carro do lado de fora da garagem. Abro todas as portas, inclusive a do porta-malas. Levanto os tapetes, olho por baixo. Passo a mão nos bancos — a textura denuncia desgaste que o olho não vê. Cheiro o interior: mofo é o pior sinal, porque significa infiltração, e infiltração pode ser problema no duto de ar condicionado ou na vedação das portas. Olho o volante, o câmbio, os pedais — esses três itens contam a história real do carro. Se o volante está liso de tão gasto mas o hodômetro marca 40 mil km, tem coisa errada. O jeito certo é examinar com calma, sem pressa, e não ter vergonha de passar a mão em cada detalhe. Carro com interior cuidado geralmente é carro de dono cuidadoso.