Ela sempre gostou de viajar à noite. Trânsito leve, ar fresco, chegar e dormir. Carlos, não. "Muito perigoso." "Bicho na pista." "Cansaço." Ela insistia: "Mas é mais rápido." Ele cedia, mas dirigia tenso, os olhos arregalados, as mãos suando. Ela via que não era implicância — era medo.
Numa viagem pra praia, forçou a ida noturna. Ele passou as primeiras duas horas sem falar, grudado no volante. Quando chegaram, estava exausto — não pela direção, pela tensão. A praia no dia seguinte foi morna porque ele não dormiu bem. Ela percebeu que o ganho logístico dela virou prejuízo emocional.
Sentou com ele. "Carlos, por que você tem tanto medo de dirigir à noite?" Ele contou: quando tinha vinte anos, sofreu um acidente à noite. Um carro sem farol na contramão. Ele desviou, bateu numa árvore. Ninguém se machucou, mas o medo ficou. Em doze anos de casamento, ele nunca tinha contado a ela. Desde então, eles viajam de dia. Se for longe, saem cedo. Perde um pouco de tempo, mas ganha a paz dele. E a dela também — porque viajar com alguém tenso não é prazeroso.