Carlos estaciona como se o carro fosse do tamanho de um Fusca e a vaga fosse maior do que parece. Ele nunca acerta de primeira. São três, quatro, cinco manobras. Uma vez, numa vaga de shopping, ele tentou estacionar por dez minutos. Uma fila de carros atrás buzinando. Ela afundou no banco. O segurança veio ajudar. A vergonha foi tanta que ela quase pediu um Uber pra voltar.
Ela tentou dar dicas: "Vira mais o volante." "Agora pra trás." Ele explodiu: "CALMA, VOCÊ SÓ ATRAPALHA!" Ela desistiu. Na cabeça dele, qualquer dica dela era uma prova de que ela achava ele incompetente. Ela passou a descer do carro antes dele estacionar. "Vou na porta esperar." Era uma fuga, não uma solução.
Um dia, um amigo nosso que é motorista de aplicativo estava junto. O Carlos foi estacionar, errou, o amigo disse: "Cara, olha o retrovisor. Quando o meio-fio sumir, vira tudo." O Carlos seguiu a instrução e estacionou perfeito de primeira. Ela ficou pasma. Era a mesma dica que ela já tinha dado, mas vindo de outro homem, ele aceitou. Ela não ficou com ciúme — ficou aliviada. Depois, em casa, comentou: "O que o João falou funcionou." Ele respondeu: "É porque ele entende de carro." Ela riu. "Claro." Mas ela aprendeu: às vezes a dica certa da pessoa errada não funciona. Hoje, quando ele estaciona mal, ela desce e espera. Ele mesmo pediu pro João ensinar. E melhorou.