Ela é uma motorista atenta. Vê placa de radar a trezentos metros, percebe quando o pneu está murcho, sente cheiro de queimado antes da luz acender. E o Carlos simplesmente ignora tudo que ela fala. "Amor, acho que esse barulho não é normal." "É normal." "Amor, o pneu parece murcho." "Tá cheio." Uma semana depois, o pneu furou na marginal. Ela não falou "eu te avisei". Mas pensou.
O problema é que ela falava do banco do carona, numa posição em que suas sugestões soavam como crítica. Toda dica dela vinha temperada com um tom de "você não sabe cuidar do carro". Mesmo que ela não quisesse, era assim que ele recebia. Num dia de calor, com o ar condicionado fazendo um barulho estranho, ela ia falar. Parou. Respirou. Em casa, perguntou: "Carlos, por que você nunca aceita minhas dicas sobre o carro?"
Ele respondeu na hora: "Porque você fala como se eu fosse burro." Doeu, mas era verdade. A preocupação dela saía como patrulha. Combinaram que ela mudaria o tom — em vez de "olha o barulho", perguntar "você também ouviu esse barulho?" — e ele tentaria ouvir sem se sentir atacado. Funcionou. Não porque ele passou a aceitar tudo que ela fala, mas porque a forma dela falar deixou de acionar o escudo dele. Humildade na comunicação é uma via de mão dupla.