Carlos tem um orgulho enorme da própria noção de direção. "Eu conheço essa cidade de olhos fechados." Conhece até a rua errada. Toda viagem que eles fazem, ele imprime o mapa — sim, imprime, folha de papel — e vai seguindo as setas desenhadas à mão. Duas horas de viagem viram três porque ele errou o desvio. Um dia foram visitar um amigo numa cidade vizinha. Uma hora e meia de GPS. Carlos decidiu ir "pelo caminho mais curto". Duas horas depois, estavam numa estrada de terra, cercados de gado, sem sinal de celular. Ele olhou pro papel, virou de ponta-cabeça, e disse: "Acho que a gente devia ter virado à esquerda lá atrás."
Ela respirou fundo. Queria gritar: "Eu falei pra usar o GPS!" Mas guardou. Quando finalmente chegaram, três horas depois, o amigo já tinha comido o churrasco inteiro. No caminho de volta, sugeriu: "Amor, e se a gente usasse o GPS como auxiliar, não como substituto? Você escolhe a rota, ele confirma." Ele relutou. "GPS me deixa confuso." "A gente coloca a voz baixa, só pra alertar sobre curvas perigosas e radares." Ele aceitou, sem vontade.
Na primeira viagem com GPS, ele reclamou que a voz era "chata". Na segunda, começou a confiar. Na terceira, ele mesmo ligava antes de sair. Hoje até atualiza os mapas. O que funcionou não foi vencer a discussão — foi oferecer o GPS como ferramenta, não como humilhação. Homem não gosta de admitir que está perdido. Mas se você dá a ele uma desculpa honrosa pra aceitar ajuda, ele aceita.