Carlos dirige como se estivesse transportando um bolo de casamento. Mão firme no volante, olhos fixos, velocidade máxima — cinquenta quilômetros por hora numa via de sessenta. Ela olhava os outros carros passando, os motoristas buzinando atrás, e sentia uma coceira no pé direito. "Carlos, a via é de sessenta, você tá a quarenta." "Tô na minha." Nos primeiros anos, ela se mordia. Depois, começou a soltar comentários passivo-agressivos: "Parece que a gente vai chegar no ano que vem." Ele não respondia, mas ela via a mandíbula dele tensionar.
Numa viagem pra casa dos pais dela, duzentos quilômetros que viraram três horas e meia. Ela quase explodiu. Quando chegaram, descarregou as sacolas em silêncio. A mãe dela percebeu: "O que houve?" "Nada." A mãe insistiu, e ela desabafou. A mãe deu um conselho: "Filha, ele não dirige devagar pra te irritar. Ele dirige devagar porque tem medo. Você já perguntou por quê?"
Ela voltou pra casa e perguntou: "Carlos, por que você dirige tão devagar?" Ele demorou pra responder. "Meu pai morreu num acidente de carro quando eu tinha doze anos. Nunca dirigi rápido desde então." O coração dela partiu. Em doze anos de relacionamento, ele nunca tinha contado aquilo a ela. Ela sentou no colo dele. "Desculpa. Por todas as vezes que reclamei." Ele disse: "Tudo bem. Você não sabia." A partir daquele dia, ela nunca mais reclamou. E ele, por conta própria, começou a andar um pouco mais perto do limite — cinco, dez quilômetros acima. Mas ainda dirige como se levasse um bolo. E hoje ela acha lindo.