Era aniversário do primo dele. Churrasco, cerveja, risada. Ela bebeu um copo, parou. Carlos bebeu o equivalente a uns cinco. Na hora de ir embora, ele esticou a mão pra chave. Ela colocou a mão na bolsa. "Você não vai dirigir." Ele riu: "Estou bem." "Você bebeu cinco cervejas." "Bebi, mas estou bem." Não estava. Ela conhecia a voz dele quando bebia — ficava um tom mais lenta, as palavras arrastavam. Pegou a chave com firmeza. "Carlos, eu vou dirigir. Você vai no banco do carona. Não é negociação."
Ele ficou irritado. No carro, não falou com ela. Quando chegaram em casa, saiu batendo a porta do quarto. Ela ficou na sala, tremendo. Não de raiva — de medo. Medo do que poderia ter acontecido. Medo de ele um dia não aceitar e dirigir assim mesmo. No dia seguinte, ele acordou com ressaca e cara fechada. Ela sentou na cama. "Carlos, eu preciso te dizer uma coisa e quero que você ouça sem se defender." Ele bufou. "Ontem à noite, eu tive medo. Medo de você matar alguém. Medo de você morrer. Medo de receber uma ligação da polícia. Eu não durmo tranquila quando você bebe e quer dirigir."
Ele ficou sério. "Você acha que eu sou um irresponsável?" "Acho que você subestima o efeito do álcool. Todo mundo subestima. Mas se você bater, não é você que vai pagar o preço sozinho — é a família de quem você machucar. E é a gente, que te ama." Silêncio pesado. Na semana seguinte, ele comprou um bafômetro portátil. Disse: "Pra eu nunca ter dúvida." E combinou com ela: se beber, dá a chave. Nunca mais repetiu. A vergonha de pedir a chave é menor que a dor de um caixão.