Terça à noite, voltando do jantar. Um motoqueiro cortou a frente da gente. Carlos apertou a buzina como se fosse o alarme de incêndio da cidade. O motoqueiro virou, fez um gesto obsceno, e ela quis enfiar a cara no banco. "Carlos, pelo amor." "Ele quase bateu na gente!" "Mas não bateu." O clima ficou pesado. Não era a primeira vez. Toda saída tinha pelo menos uma buzinaçada, um xingo, uma discussão no trânsito em que ela virava estátua de vergonha alheia.
Ela tentou conversar em casa, em tom calmo. "Amor, você percebe que quando buzina, você atrai briga? Um dia vai ser alguém pior que desce do carro." Ele respondeu: "Você quer que eu deixe os outros passarem por cima de mim?" Não era isso. Ela explicou que buzina não é arma — é comunicação. Que existe diferença entre buzinar pra evitar acidente e buzinar por impaciência. Ele ficou em silêncio.
Eles combinaram um código: toda vez que ele fosse buzinar por impaciência, ela colocava a mão no braço dele. Sem julgamento, só um toque. No início, ele ignorava. Mas com o tempo, o toque virou um lembrete físico. Ele começou a respirar antes de buzinar. Num semáforo, um carro demorou pra sair no verde — ele colocou a mão no volante, respirou, e esperou. Olhou pra ela e sorriu. Foi uma vitória pequena que parecia enorme. Buzina ainda acontece, mas bem menos. E quando acontece, vem seguida de um olhar envergonhado, não de uma briga.