O marido nunca dirige quando saem juntos. A esposa sempre assume o volante. Como resolver?

Luísa

No início ela nem percebeu. Ela sempre gostou de dirigir, então naturalmente pegava a chave quando saíam. Pra jantar, pro mercado, pra visitar a mãe dele. Carlos ficava no banco do passageiro, mexendo no rádio, olhando a paisagem. Um dia, numa viagem de seis horas pro litoral, ela dirigiu o trajeto inteiro. Quando chegaram, suas costas doíam, seus olhos ardiam. Ele saltou refrescado, espreguiçou e disse: "Que bom que você dirige bem, amor." Ela sorriu, mas dentro dela uma chavinha virou. Ele nunca se ofereceu. Nunca disse "deixa que eu vou hoje". Era cômodo demais — e ela tinha virado motorista particular sem contrato.

Ela começou a prestar atenção. Em seis meses de observação silenciosa, ele dirigiu exatamente duas vezes: uma porque ela tinha bebido, outra porque estava com uma crise de enxaqueca. Fora isso, zero. Ela sempre dirigindo pra tudo. Pra levar ele no trabalho quando o carro dele estava na oficina, pra buscar remédio na farmácia de madrugada, pra ir no mercado aos domingos. Ela começou a criar um ressentimento mudo. Não falava nada, mas cada "você dirige tão bem" soava como "você trabalha e eu descanso". Até que um dia, voltando da casa dos pais dela, cansada, ele dormiu no banco do carona enquanto ela enfrentava uma chuva torrencial. Ela apertou tanto o volante que suas juntas doeram.

Em casa, quando ele acordou e foi escovar os dentes, ela falou: "Carlos, a gente precisa conversar sobre direção." Ele cuspiu a pasta. "O que foi?" "Eu amo dirigir. Mas eu não quero ser a única motorista desse casamento. Eu canso. Eu tenho medo em estrada. E ontem, na chuva, eu estava com medo e você dormindo." Ele parou, a escova pendurada na mão. "Nossa, eu nunca pensei nisso." E era verdade. Ele simplesmente nunca tinha pensado. Não por maldade — por zona de conforto. Combinaram que ele dirigiria pelo menos metade das viagens longas e uma vez por semana nos trajetos urbanos. No início ele reclamou do trânsito, mas depois pegou gosto. Hoje ele se oferece antes de ela pedir. O problema não era dirigir ou não dirigir — era o peso invisível que a pessoa que sempre faz acaba carregando sozinha.