— Certidão negativa de casamento? — Carlos repetiu, estranhando. — Pra quê?
— O cartório pediu — o atendente do banco disse. — Pra fazer a alteração no financiamento.
— Mas eu sou casado. Como vou ter certidão negativa?
— Negativa de ônus. Não é que o senhor não seja casado. É que não tem impedimento, não tem outro casamento registrado.
— Entendi.
— Tem que pedir no cartório onde casou.
Carlos foi direto. Já conhecia o caminho. Entrou, cumprimentou a escrevente.
— De novo? — ela perguntou, rindo.
— De novo. Mas dessa vez é certidão negativa.
— De casamento?
— É. O banco pediu.
— Você já é casado. A negativa só atesta que não tem outro registro no nome.
— Foi o que eu entendi.
— Emito rapidinho.
Ela digitou, imprimiu, carimbou.
— Quarenta reais.
Ele pagou.
— Tá aqui. Negativa de casamento. Não tem nenhum outro registro no seu nome nem no da sua esposa.
— Então tá tudo certo.
— Tudo.
Ele guardou o papel e foi embora. No caminho, passou na padaria. Seu Jorge estava no balcão.
— E aí, casado? — Seu Jorge perguntou.
— Casado.
— E agora?
— Agora... agora a gente segue.
— É a vida.
— É.
Carlos pediu um pão na chapa e sentou na mesa da calçada. O sol da tarde, o movimento da rua, o cheiro de café.
Ele pensou no caminho até ali. Desde o primeiro encontro, a lua de mel, a união estável, o casamento no cartório, as certidões, os papéis. Tudo documento. Tudo registro.
Mas o que valia mesmo estava ali, no dia a dia. No café da manhã, nas conversas no sofá, no Toby pulando no portão quando eles chegavam.
Ele terminou o pão, pagou, e foi pra casa.
— Conseguiu? — Luísa perguntou quando ele entrou.
— Consegui.
— Mais uma certidão.
— A última.
— Jura?
— Juro. Essa foi a última da fase.
Ele sorriu.
— Fase quatro completa.
— E agora?
— Agora a gente descansa.
— Boa ideia.
Ele sentou no sofá. O Toby pulou no colo. Luísa se aninhou do lado. A tv ligou num filme qualquer.
Fase quatro. Família. Documentada, registrada, carimbada.
Mas o melhor era o silêncio do fim da tarde, os três juntos no sofá.
*Fim da Fase 4 — Família 💍*