Já era noite quando Carlos estacionou o carro na frente da casa do Beto. Ele ficou um minuto com o motor ligado, olhando a luz acesa da sala.
Três semanas sem se falar. Tudo por causa de uma discussão besta sobre o churrasco do mês passado. Beto disse que ele não ajudou a organizar. Carlos disse que Beto não avisou. Aí veio o "você nunca tá presente" e o "você só aparece quando precisa".
Palavras jogadas. Mas doíam.
— Vai ficar aí o resto da noite? — Luísa perguntou.
— To respirando.
— Já respirou. Vai.
Ele desligou o carro. Desceu. Andou até a porta e tocou a campainha.
Beto abriu. Camiseta velha, bermuda, cara de quem estava vendo jogo.
— Oi — Carlos disse.
— Oi.
Silêncio.
— Posso entrar?
Beto abriu a porta e virou as costas. Carlos entrou. A tv estava ligada num replay de futebol. Beto sentou no sofá.
— Quer cerveja? — Beto perguntou sem olhar.
— Quero.
Beto levantou, pegou duas latas na geladeira, voltou. Estendeu uma.
Carlos abriu. Bebeu um gole.
— Sobre o churrasco — ele começou.
— Não precisa.
— Precisa. Eu fui babaca.
Beto olhou pra ele.
— Você teve um ponto. Eu não ajudei. Mas também não foi de propósito. Foi correria do trabalho. Mas eu devia ter avisado.
— Eu também exagerei — Beto disse. — Falei um monte.
— Falou.
— Mas tava puto.
— Tava. E eu também.
Eles ficaram um tempo em silêncio, bebendo. O jogo passando.
— O Pedro perguntou por você — Carlos disse. — Semana passada.
— Manda ele vir aqui. A gente joga videogame.
— Mando.
Carlos virou a lata.
— Tamo junto?
Beto estendeu a mão. Carlos apertou.
— Tamo junto.
— Sexta-feira tem churrasco de novo — Beto disse. — Mas dessa vez você vai me ajudar.
— Combinado.
Carlos terminou a cerveja, levantou, deu um tapinha no ombro do irmão e foi embora. Lá fora, a rua estava calma. Ele entrou no carro e ligou.
— Resolveu? — Luísa perguntou.
— Resolveu.
— Como?
— A gente só falou.
— As vezes é só o que precisa.
Ele deu a partida.
*Continua em: 832 — Como lidar com irmãos que moram longe?*