O almoço de domingo na casa da Dona Lúcia estava quase pronto. O cheiro de frango assado ocupava a cozinha inteira. Luísa ajudava a arrumar a mesa quando Clarinha entrou com um rapaz ao lado.
— Gente, esse é o Léo — Clarinha disse. — Meu namorado.
Carlos levantou a cabeça do celular. Beto parou de encher o copo de suco. Dona Lúcia apareceu na porta da cozinha com a luva térmica ainda na mão.
— Prazer — Léo disse.
Ele era magro, cabelo cacheado, camisa xadrez. Parecia mais nervoso que a Clarinha.
— Senta aí, Léo — Carlos disse. — Fica à vontade.
Luísa observou. Clarinha segurou a mão do Léo e puxou ele pra perto da mesa. Ele sentou na ponta, quase na borda da cadeira.
— Água? Suco? — Dona Lúcia perguntou.
— Água, tia. Obrigado.
Dona Lúcia olhou pra Luísa e fez um leve movimento com a cabeça, como quem diz "gostei". Luísa deu um sorriso discreto de volta.
No meio do almoço, Beto começou a contar uma história de quando a Clarinha era criança.
— Ela tinha medo de palhaço. Uma vez a gente foi no circo e ela passou o espetáculo inteiro enterrada no meu braço.
Clarinha revirou os olhos.
— Tá vendo? Eles nunca esquecem.
— Vergonha alheia — Carlos completou.
Léo riu, mas foi um riso contido. Ele olhou pra Clarinha e apertou a mão dela por baixo da mesa.
Luísa percebeu. Ele tava prestando atenção. Não tava só ali de corpo presente.
— A gente tem uma regra aqui em casa — Carlos disse, virando pro Léo. — Todo namorado novo tem que passar pelo teste do churrasco.
— Teste do churrasco? — Léo perguntou.
— É brincadeira — Clarinha disse rápido.
— É sim — Carlos falou. — Mas também não é.
Luísa deu um tapinha no braço do Carlos.
— Deixa o menino comer. Depois vocês testam.
Ela olhou pro Léo e disse:
— Relaxa. A família é barulhenta mas é tranquila. Só não some no meio da conversa e não recusa a sobremesa da Dona Lúcia.
Léo sorriu de verdade dessa vez.
— Pode deixar.
Depois do almoço, na cozinha, enquanto lavava a louça, Luísa pensou em como tinha sido recebida quando começou a namorar Carlos. Dona Lúcia com o avental verde, oferecendo café. Beto apertando a mão dela com força. Clarinha perguntando mil coisas.
Ela entendeu o que o Léo tava sentindo. O segredo não era tratar como visita. Era tratar como parte.
*Continua em: 831 — Como se reconciliar com um familiar?*