A respiração de Luísa estava curta. Ela parou no meio da subida, uma mão no joelho, a outra apoiada no tronco de uma árvore. O suor escorria da testa e pingava no chão de terra. O grupo já estava uns vinte metros à frente. Ela via as mochilas subindo a curva, sumindo entre as folhas.
— Luísa? — a voz do guia veio de cima.
Ela ergueu a mão sem levantar a cabeça. — Só um segundo.
O guia desceu os degraus de pedra em dois pulos, aparecendo ao lado dela. — Tudo bem?
— Tô. Só... — Ela encheu o peito. — Tô cansada.
— A subida é a pior parte. Depois do topo, o resto é paisagem.
Ela forçou um sorriso. O joelho dela doía. Ela não queria segurar o grupo. Todo mundo parecia bem, andando num ritmo que não era o dela.
— Escuta — o guia disse, abaixando a mochila e tirando uma pequena squeeze — a gente não tem hora pra chegar. O grupo sabe disso. Você quer ir mais devagar?
— É que eu não quero atrapalhar — Luísa confessou.
— Atrapalhar como? Você faz parte do grupo. Se alguém tiver apressado, o problema é da pessoa, não seu.
Ela pensou nisso. O guia apontou para uma pedra lisa no acostamento. — Senta um minuto. Bebe água. Depois a gente vai no seu ritmo.
— E os outros?
— Eles tão indo. Quando a gente alcançar, a gente alcança. — Ele sentou na pedra ao lado. — Trilha não é corrida.
Luísa sentou. A pedra estava fria apesar do sol. Ela abriu a garrafa e bebeu. A água estava morna mas desceu bem.
— Eu costumo ser mais rápida — ela disse, secando a boca com o dorso da mão.
— Tudo bem.
— Mas essa subida...
— É ingreme. A primeira vez sempre pega. — O guia apontou para as botas dela. — Tênis novo?
— É sim. Comprei pra hoje.
— Isso também atrapalha. O solado não amaciou ainda. Na volta vai estar melhor.
Ela olhou para o tênis. Realmente, a borracha parecia dura demais para a pedra solta.
— Vamo — o guia levantou e estendeu a mão. — Vai no seu tempo. Se quiser parar de novo, é só falar.
Luísa pegou a mão e se levantou. Apoiou as mãos na cintura, olhou para o chão e começou a subir. Passo menor. Mais pausado. O guia ficou dois passos atrás, no ritmo dela.
Ela parou mais duas vezes na subida. Na segunda, o guia apontou uma árvore com uma bromélia florindo e explicou que aquela espécie só crescia em altitude. Ela ouviu. Respirou. Olhou a flor.
Quando alcançou o grupo no topo, estava ofegante, mas não morta. O vento no rosto era fresco. A vista do vale era um Tapete verde com manchas de telhado marrom.
— Chegou — o guia disse.
— Cheguei — ela respondeu. E sorriu.
*Continua em: 745 — Carlos — Como pedir a um atendente de duty-free para experimentar um perfume*