O sol batia forte no estacionamento de terra batida. Carlos estava com a mochila nas costas, a garrafa de água numa mão e o celular na outra, a tela apontada para o grupo do WhatsApp. A foto que a Luísa mandou mostrava uma placa de madeira com uma seta amarela: TRILHA DO MORRO DO LEO — 4,5 KM.
Ele olhou para a placa de verdade. Depois para o chão de pedra solta. Depois para o guia, um cara de barba fechada, boné verde e bota de trilha amarrada até o último gancho. O guia estava conferindo a lista num tablet, circulando entre os sete integrantes do grupo.
— Vai ser tranquilo? — Carlos perguntou, mas a voz saiu baixa.
— Hã? — o guia virou.
— A trilha. A dificuldade.
O guia apontou para o tablet. — Tá aqui, nível moderado.
— Moderado é quanto?
O guia ergueu uma sobrancelha. — Tem subida íngreme, uns trechos de pedra solta, mas não precisa rapel nem nada técnico. Cê já fez trilha antes?
— Já. Caminhada. Na esteira.
O guia riu, mas não foi de maldade. — É diferente. A esteira não tem buraco, pedra que rola, nem sol na cabeça.
Carlos sentiu o calor subir no rosto. — É. Tô ligado.
O guia guardou o tablet no bolso do colete. — Olha, moderado significa que você vai sentir. Vai cansar. Mas se você for no seu ritmo, parar pra respirar, beber água, você chega. O problema é querer acompanhar quem já faz trilha toda semana.
— E quanto tempo?
— Uma hora e meia, duas, depende do grupo.
Carlos olhou para o início da trilha. A terra subia entre as árvores, sumindo na curva. Ele não conseguia ver o topo.
— Tô com um pouco de ansiedade — ele disse, a mão na nuca.
O guia balançou a cabeça. — Normal. Ansiedade de trilha nova. — Ele deu dois passos e apontou para uma moça que estava amarrando o tênis. — Olha, o negócio é o seguinte: você começa devagar. Não quer ser o primeiro. Os primeiros sempre cansam antes. Fica no meio do grupo. Escuta seu corpo. Se seu coração tiver batendo que nem vai querer sair do peito, você reduz. Me avisa. A gente para.
— Posso perguntar no meio do caminho também? Se tiver dúvida?
— Pode me chamar a hora que quiser. Eu não mordo.
Carlos riu, mais aliviado.
— E leva isso aqui — o guia tirou um bastão de caminhada de dentro do carro. — Apoio nas descidas. Joelho agradece.
Carlos pegou o bastão. O peso metálico na mão era diferente de qualquer peso que ele sentia no escritório. Mais sólido. Mais real.
— Valeu.
— Vamo que vamo — o guia disse, batendo palma uma vez. — Grupo, atenção! Vou passar as regras básicas e a gente sobe. Qualquer coisa, me chama no grito. Ou no apito.
Ele segurou um apito prateado pendurado no pescoço.
Carlos respirou fundo e ajustou a alça da mochila. O bastão na mão direita. O sol na cara. O chão de pedra esperando.
*Continua em: 744 — Luísa — Como pedir ao guia de trilha para ir mais devagar*