Como pedir um enxaguante bucal ao comissário?

Carlos

O voo tinha entrado no período noturno. As luzes da cabine estavam baixas, cortinas fechadas, a maioria dos passageiros dormindo. Carlos tinha acabado de comer um sanduíche. O gosto de pão e maionese ficou na boca.

— Acho que vou no banheiro escovar os dentes — ele disse baixinho.

— Trouxe escova? — Luísa perguntou, com sono na voz.

— Esqueci na mochila despachada.

Ele fez uma careta. O gosto na boca incomodava. Ele pensou em ir ao banheiro só lavar a boca com água, mas sabia que não ia adiantar.

— Pede um enxaguante — Luísa sugeriu.

— Comissário tem?

— Só perguntando.

Ele hesitou. Apertou o botão de chamada. O comissário grisalho veio, andando devagar no corredor escuro.

— Pois não?

— O senhor tem um enxaguante bucal? Esqueci a escova.

— Deixa eu ver.

Ele foi para a cozinha, abriu armários, mexeu em caixas. Voltou com um copinho de papel e uma garrafinha pequena de enxaguante — daquelas de hotel.

— Acha que serve?

— Serve perfeitamente. Obrigado.

Carlos foi ao banheiro. Despejou o enxaguante no copo, bochechou. O sabor de menta preencheu a boca, espalhou frescor. Ele cuspiu, lavou o rosto com água, passou a mão no cabelo.

Voltou para o assento.

— Fresco? — Luísa perguntou.

— Menta. Parece que escovei.

— Pedido inesperado.

— Mas resolveu.

Ele se acomodou na poltrona, o hálito limpo, o gosto de sanduíche substituído pelo frescor da menta. Às vezes o que faltava era só perguntar.

*Continua em: 706 — Luísa — Como pedir um saco de enjoo ao comissário?*