O avião estava no ar há duas horas. O ar seco da cabine deixava tudo ressecado — os olhos, a garganta, a pele. Carlos passou a língua nos lábios e sentiu a textura áspera.
— Tá ressecado — ele murmurou.
— O quê? — Luísa perguntou sem tirar os olhos do filme na tela à frente.
— O lábio. Tá rachando.
Ele apertou os lábios um no outro, sentiu a pele repuxar. Passou o dedo de leve e viu uma pontinha de pele solta.
— Tem protetor labial aí? — ele perguntou.
— Não trouxe.
Ele olhou para o corredor. Uma comissária passava com uma bandeja vazia, voltando para a cozinha.
— Comissária? — ele chamou.
Ela virou, o uniforme azul impecável, o cabelo preso num coque apertado.
— Pois não?
— Será que tem protetor labial? O ar do avião tá muito seco.
— Deixa eu ver o que a gente tem no kit de amenidades.
Ela sumiu atrás da cortina. Carlos ouviu gavetas abrindo e fechando. Ela voltou com um tubinho branco, lacrado.
— Aqui. Protetor labial com FPS. Pode ficar.
— Obrigado.
Ele abriu o lacre e passou nos lábios. A textura suave, levemente oleosa, cobriu a pele ressecada num toque frio. Ele passou os lábios um no outro e sentiu a diferença imediata.
— Resolveu? — Luísa perguntou.
— Resolveu. Era só pedir.
Ele guardou o tubinho no bolso da camisa e apoiou a cabeça no encosto. Lábio hidratado, ar seco, janela com nuvens. Pequeno problema resolvido com um pedido simples.
*Continua em: 684 — Luísa — Como pedir creme hidratante ao comissário?*