Fazia três meses que Luísa não pisava na casa da mãe. Três meses desde aquela discussão no telefone, quando Dona Margô disse que ela "não era mais a mesma" e Luísa respondeu com uma rispidez que não cabia na relação delas. Depois disso, as ligações rarearam. As mensagens viraram monossílabos. O silêncio cresceu como parede entre elas.
Luísa estava no quarto, sentada na cama, o celular na mão. A tela mostrava a conversa com a mãe. A última mensagem era de duas semanas atrás: "Bom dia, filha. Tudo bem?" — e ela respondeu: "Tudo."
Carlos entrou no quarto.
— Ainda pensando nisso?
— Não consigo parar.
— Liga pra ela.
— E se ela não quiser falar?
— Ela quer. É sua mãe.
Luísa respirou fundo. Tocou no nome da mãe e levou o celular ao ouvido.
— Oi, filha.
A voz de Dona Margô estava diferente. Menos firme. Como se também estivesse esperando.
— Oi, mãe.
Silêncio. Luísa sentiu os olhos arderem.
— Mãe, eu queria pedir desculpa. Pelo que eu falei. E por ter sumido.
Do outro lado, um suspiro longo.
— Eu também errei, filha. Falei coisas que não devia.
— Mas eu podia ter ligado antes. E não liguei.
— Tudo bem. O que importa é que ligou agora.
Luísa fechou os olhos. O quarto estava silencioso. O Toby entrou, pulou na cama e deitou ao lado dela.
— Posso ir aí amanhã? — Luísa perguntou.
— Claro que pode. Vou fazer o almoço.
— Posso levar o Carlos?
— Claro. E o Toby também.
Luísa riu baixinho. A mãe sempre perguntava pelo Toby.
— Tá bom, mãe. Amanhã a gente vai.
— Tô esperando, filha.
Quando desligou, Luísa ficou olhando para o teto. O nó no peito tinha afrouxado. Não resolveu tudo. Mas resolveu o primeiro passo.
*Continua em: 643 — Viagem e bagagem — motorista*