O almoço na casa de Dona Lúcia tinha terminado. A mesa estava cheia de pratos vazios, uma travessa com os restos de farofa, outra com pedaços de carne. Carlos foi levar os pratos para a cozinha. Luísa ficou na mesa com Dona Lúcia.
— O Carlos me disse que vocês estão guardando dinheiro pra viagem — Dona Lúcia disse, enrolando um guardanapo entre os dedos.
— É — Luísa respondeu. — A gente quer ir pra praia no fim do ano.
Dona Lúcia balançou a cabeça, um sorriso no canto da boca.
— Que bom. Faz bem sair um pouco.
Luísa sentiu que Dona Lúcia queria dizer mais alguma coisa. A luz da tarde entrava pela janela, iluminando as plantas na varanda. O silêncio durou uns segundos.
— Sabe — Dona Lúcia continuou —, o Carlos nunca foi bom com dinheiro. Quando ele morava aqui, gastava tudo com besteira.
Luísa não sabia se ria ou se concordava.
— Ele melhorou — ela disse.
— Por sua causa?
— Não. Porque ele quis. Mas a gente se ajuda.
Dona Lúcia olhou para ela com um olhar diferente. Mais fundo.
— Vocês conversam sobre isso?
— A gente conversa sobre tudo. Dinheiro, planos, contas.
— Que bom. — Dona Lúcia apoiou as mãos na mesa. — Porque no começo do meu casamento, a gente não conversava. E deu problema.
Luísa esperou. Dona Lúcia continuou.
— Seu Antônio ganhava bem, mas não me contava quanto. Eu tinha que pedir. Era humilhante. Depois de uns anos, a gente aprendeu. Mas demorou.
Luísa pensou nas conversas que tinha com Carlos no sofá, com o Toby no colo, o celular aberto nas planilhas do mês. Não era romântico. Mas era real.
— A gente faz questão de dividir — Luísa disse. — Todo mês a gente senta e vê como foi.
Dona Lúcia sorriu. Dessa vez foi um sorriso mais completo.
— Ele tá em boas mãos.
Carlos voltou da cozinha, sem perceber que a conversa tinha mudado o tom da sala. Sentou e perguntou:
— Tá tudo bem?
— Tudo — Luísa respondeu.
E, pela primeira vez, falar de dinheiro com a sogra não foi estranho.
*Continua em: livreto-637.md — Carlos — Como pedir empréstimo para os sogros?*