Áudio de 47 segundos do tio Marcos. Luísa viu o nome na tela enquanto esperava o café passar na cozinha. Ela apertou play e encostou o celular no ouvido.
— Luísa, tudo bem? É o tio Marcos. Olha, tô com uma situação aqui. Preciso de setecentos reais até sexta. É rápido, pago na outra semana. Me avisa se puder.
Luísa colocou o celular na bancada e ficou olhando para a cafeteira. O café pingava devagar. Ela e o tio Marcos não se falavam há seis meses. Não por briga — só porque a vida seguia, cada um no seu canto. Ele aparecia nos almoços de família, perguntava como ela estava, e sumia até o próximo evento.
Agora aparecia com um pedido.
Ela pegou o celular e foi para a sala. Sentou no sofá. Toby levantou a cabeça e depois deitou de novo.
Carlos saiu do banheiro, a toalha no ombro.
— O que foi?
— Tio Marcos. Pedindo setecentos reais.
— Você vai emprestar?
Luísa balançou a cabeça.
— Não.
— Então fala isso.
— É mais fácil falar do que fazer.
Ela escreveu e apagou três respostas diferentes. A primeira muito seca. A segunda com desculpa esfarrapada. A terceira parecia um texto de banco.
Respirou e escreveu:
*"Oi, tio. Não vou poder ajudar esse mês. Espero que resolva a situação. Qualquer outra coisa que eu puder fazer, é só falar. Beijo."*
Mandou. Guardou o celular. O café tinha acabado de passar.
— E agora? — Carlos perguntou.
— Agora acabou.
O celular vibrou. Tio Marcos respondeu: "Tá bem, Luísa. Obrigado de qualquer forma."
Luísa virou o celular contra o peito. Não doeu falar não. Doeu ter demorado tanto para aprender.
*Continua em: livreto-635.md — Carlos — Como conversar sobre empréstimo para parente do parceiro?*