Carlos estava no escritório de casa quando o celular vibrou. Beto de novo. Eles tinham se falado na semana passada sobre o empréstimo que Carlos tinha feito. Agora Beto ligava de novo. Carlos sentou direito na cadeira e atendeu.
— Oi, Bet. Tudo bem?
— Tudo. — Pausa. — Olha, eu sei que você já ajudou. Mas a situação apertou de novo.
Carlos fechou os olhos. A luz do monitor refletia no rosto dele. Ele apoiou o cotovelo na mesa e passou a mão na testa.
— Quanto? — perguntou, já sabendo que não podia.
— Mais mil. Só até o fim do mês.
Carlos olhou para a planilha aberta na tela. Ele já tinha emprestado mil para o Beto na semana passada. Esse mês não tinha mais margem. A reserva de emergência estava no mínimo. O curso do Pedro vencia na próxima semana.
— Beto... não vai dar.
Silêncio.
— Esse mês eu já emprestei o que dava — Carlos continuou. — O restante já tá comprometido.
— Nem metade?
— Nem metade.
Beto soltou um suspiro do outro lado. Não era um suspiro de raiva. Era cansaço.
— Tá bom. Eu entendo.
— Se eu pudesse, eu ajudava.
— Eu sei. Valeu por ter ajudado na primeira.
Carlos ficou olhando para a tela depois que desligou. O cursor piscava na planilha. Ele pensou em ligar de volta, em tentar apertar alguma coisa. Mas não tinha o que apertar. O não era o não.
Mais tarde, na sala, Luísa perguntou:
— Beto de novo?
— É.
— E você falou?
— Falei que não dava.
— E ele?
— Entendeu.
Luísa apoiou a cabeça no ombro dele. Toby pulou no sofá e se aninhou entre os dois.
— Foi a primeira vez que você falou não pra ele — ela disse.
Carlos pensou. Era verdade. As outras vezes ele sempre dava um jeito. Sempre apertava algo. Mas uma hora o orçamento não aperta mais — quebra.
*Continua em: livreto-634.md — Luísa — Como recusar pedido de dinheiro de tio ou primo?*