Carlos chegou em casa e já viu a mensagem no WhatsApp. Tio Paulo. "Carlos, preciso falar com você. É rápido."
Ele deixou o celular em cima da mesa da cozinha e foi tomar água. Sabia o que era. O tio Paulo ligava uma ou duas vezes por ano, sempre no mesmo tom, sempre para o mesmo assunto.
Luísa entrou na cozinha.
— Quem foi?
— Tio Paulo.
— Ah.
Ela não precisou dizer mais nada. Já conhecia o padrão.
Carlos pegou o celular e sentou no sofá. Toby pulou no colo dele. Ele fez carinho no pelo do cachorro enquanto pensava no que ia responder.
O tio Paulo era irmão da mãe dele. Tinha uma oficina mecânica que vivia oscilando entre o vermelho e o zero. Já tinha pedido dinheiro três vezes nos últimos dois anos. As duas primeiras, Carlos emprestou. A terceira, ele disse que não podia. O tio ficou sem graça por uma semana, depois voltou ao normal.
Agora era a quarta vez.
Carlos escreveu: "Fala, tio. Pode falar."
A resposta veio num áudio. Ele encostou o celular no ouvido. A voz do tio Paulo no fundo da oficina, som de ferramentas batendo.
— Carlos, é o seguinte. A oficina deu um problema, uma peça que estragou, preciso de mil e quinhentos pra resolver. Você pode dar uma força?
Carlos olhou para a tela. Passou a mão na nuca. Pensou na resposta por um minuto antes de gravar.
— Tio, não vai dar esse mês. O orçamento fechou. Se pudesse, eu ajudava, mas agora não dá.
Mandou. Guardou o celular no bolso.
— E agora? — Luísa perguntou.
— Agora é esperar. Já falei.
— Não justificou?
— Não. Só falei que não dava.
Luísa sorriu. Era isso que ela vinha dizendo nos últimos meses. Não precisava de desculpa elaborada. Só precisava do "não".
O celular vibrou. Uma mensagem curta do tio Paulo: "Tá certo, Carlos. Outra hora."
*Continua em: livreto-630.md — Luísa — Como falar com familiar que sempre pede dinheiro?*