O telefone vibrou em cima da mesa do escritório. Carlos olhou para a tela: "Mãe". Ele atendeu.
— Oi, mãe.
— Carlos, você tá ocupado?
— Tô no trabalho, mas posso falar. Aconteceu alguma coisa?
— Não, não. É que... — Dona Lúcia fez uma pausa. — Seu pai precisa de um dinheiro pra consertar o carro. A oficina orçou dois mil e quinhentos.
Carlos segurou o telefone um pouco mais firme. A luz fluorescente do escritório parecia mais fria de repente.
— Aí a gente pensou — Dona Lúcia continuou — se você podia dar uma ajuda. Só até o fim do mês.
Carlos olhou para a tela do computador. A planilha de orçamento do mês estava aberta. Ele já tinha separado o dinheiro do aluguel, da conta de luz, da parcela do curso de Pedro, da reserva de emergência. Mal sobrava trezentos reais para o mês.
— Mãe... — ele começou.
— É do carro — ela insistiu. — Seu pai precisa pra trabalhar.
— Eu sei. Mas esse mês não dá.
Silêncio.
Carlos passou a mão na nuca. A cadeira rangeu quando ele se inclinou para frente.
— É que fechou tudo. Aluguel, as contas, o curso do Pedro. Não sobrou margem.
— Então... não tem mesmo?
— Não tem. Desculpa.
Dona Lúcia suspirou do outro lado. Não foi um suspiro de raiva. Foi um suspiro de quem entende mas não gosta.
— Tá bom, filho. A gente se vira.
— Mãe — Carlos disse. — Eu queria poder ajudar. Só não dá esse mês.
— Eu sei.
Quando desligou, Carlos ficou olhando para o telefone. O ar condicionado soprava frio no braço dele. Ele pensou em ligar de volta, em dizer que tentaria um jeito. Mas não tinha jeito. A reserva de emergência não era para isso.
*Continua em: livreto-626.md — Luísa — Como emprestar dinheiro para um irmão?*