O restaurante em Buenos Aires tinha luz baixa, paredes de tijolo aparente e um cheiro de carne grelhada que entrava pelo nariz e não saía mais. Luísa terminou o bife de chorizo, o prato limpo, o osso da carne virado para cima.
— Maravilhoso — ela disse.
— Melhor carne que já comi — Carlos concordou.
O garçom passou perto, recolheu os pratos, perguntou se queriam sobremesa. Luísa disse que não. Carlos também.
Eles ficaram conversando. O tempo passou. O garçom não voltou.
— A conta — Luísa disse, baixinho.
— To esperando ele passar de novo.
O restaurante estava esvaziando. As mesas ao lado já tinham ido embora. O garçom estava no balcão, de costas, arrumando alguma coisa.
— Preciso chamar — ela disse.
— Como se fala conta em espanhol?
— La cuenta.
— Então chama.
Luísa respirou fundo. Levantou a mão na altura do ombro e falou, num volume mais alto que o normal, mas não exagerado:
— Señor? La cuenta, por favor.
O garçom virou, olhou, acenou com a cabeça.
— Ahora mismo.
Ele foi até o balcão, pegou a maquininha e voltou.
A conta veio num papelzinho: R$ 12.500 pesos argentinos.
— No cartão? — ele perguntou em português.
— Pode ser no cartão — ela respondeu.
— Débito o crédito?
— Crédito.
Ele passou o cartão na máquina. Ela digitou a senha. O comprovante saiu.
— Muito obrigada.
— De nada. Bonita noite.
Ele se afastou. Ela guardou o cartão e olhou para Carlos.
— Foi fácil.
— Foi.
— E eu passei a noite inteira ensaiando como pedir a conta em espanhol.
Carlos riu.
— Funcionou.
Levantaram-se. A noite de Buenos Aires esperava lá fora, as luzes das ruas acesas, o obelisco ao longe.
*Continua em: 617 — Como pedir ao garçom para dividir a conta no exterior?*