O grupo de turistas parou em frente ao chafariz central da praça. O guia, um homem de meia-idade com chapéu de palha e uma bandeirinha amarela na mão, apontava para a igreja do século dezoito.
— Aqui foi construída em mil setecentos e oitenta e dois — ele dizia. — A fachada é barroca, mas o interior já tem influência neoclássica...
Carlos estava no fim do grupo, o sol do meio-dia batendo na nuca. Ele não estava prestando atenção na fachada. Estava pensando em almoço.
O tour terminou quinze minutos depois. O guia se despediu do grupo, a bandeirinha guardada na mochila.
— Licença — Carlos chamou.
— Pois não — o guia disse, virando.
— O senhor conhece a cidade bem. Pode recomendar um restaurante pra almoçar? Algo mais... local. Não esses de rede.
O guia tirou o chapéu, passou a mão na testa suada.
— Depende do que quer comer.
— Carne. Um bom PF, uma parrillada, algo assim.
— Tem o Bar do Zé, a duas ruas daqui. Vira à direita na farmácia, desce meia quadra. É uma porta azul. Não tem placa na frente, mas a comida é a melhor da região.
— Bar do Zé?
— Isso. Pergunta pelo prato do dia. Se for quinta, é o rabada.
— Valeu.
O guia colocou o chapéu de volta.
— Se quiser sobremesa, pede a goiabada com queijo. A Dona Nilza, que faz a sobremesa, ganhou prêmio municipal.
— Anotado.
Carlos caminhou até a farmácia, virou à direita, desceu meia quadra. Uma porta azul, sem placa, igual o guia falou. Ele empurrou a porta. O cheiro de comida caseira bateu na cara.
— É o prato do dia? — ele perguntou ao homem no balcão.
— Quinta é rabada.
— Serve dois?
O homem levantou a cabeça e olhou para a cozinha.
— Serve. Senta aí.
Carlos sentou na mesa de fórmica, o celular na mão. Mandou mensagem para Luísa: "Achei um lugar. Porta azul, sem placa. Rabada. Vem."
Ela respondeu em segundos: "Tô indo."
Ele guardou o celular e sorriu para o nada. Guia turístico, porta azul, rabada. A melhor descoberta de viagem não estava no roteiro.
*Continua em: 612 — Como pedir ao host do Airbnb recomendação de restaurante?*