Como recusar comida na casa de alguém?

Carlos

A casa de Dona Lúcia tinha cheiro de almoço de domingo desde a porta. Carlos entrou e sentiu: cebola refogada, arroz fresquinho, alguma coisa cozinhando devagar no fogão.

— Senta, senta — Dona Lúcia disse, apontando para a mesa. — Já vou servir.

— Mãe, eu almocei faz duas horas. A Luísa e eu fomos num restaurante antes de vir.

— Isso não é almoço. Restaurante não enche barriga de verdade. Senta.

Carlos olhou para Luísa. Ela deu de ombros.

— Eu como um pouquinho — Luísa disse.

Dona Lúcia apareceu com uma travessa de lasanha fumegando. Queijo derretido por cima, molho vermelho borbulhando nas bordas. Colocou no centro da mesa.

— Olha que linda. Fiz hoje de manhã.

Carlos sentiu o estômago apertado. Não cabia mais nada. Ele tinha almoçado mesmo, e bem.

— Mãe, eu tô satisfeito de verdade.

— Só uma fatia pequena, filho.

— Juro. Não cabe.

Dona Lúcia parou com a concha no ar. O sorriso diminuiu um pouco.

— Você sempre gostou de lasanha.

— E eu gosto. Mas agora não dá.

Ela baixou a concha. Luísa cortou o silêncio.

— Dona Lúcia, eu quero um pedaço, sim. Tá cheirando tão bem.

— Pega bastante — ela disse, servindo Luísa.

Carlos ficou olhando. A lasanha subindo no prato de Luísa. Ele queria comer, mas não conseguia. Não era falta de educação. Era falta de espaço.

— Posso levar um pedaço pra casa? — ele perguntou.

— Levar pra casa?

— É. Como amanhã no almoço. Aí não desperdiça.

Dona Lúcia pensou por um segundo. Depois pegou um pote de plástico do armário.

— Tá bom. Mas pelo menos prova o molho.

— Só o molho.

Ela passou uma colherada no pires dele. Ele molhou um pedaço de pão, comeu.

— Tá bom, mãe.

Ela sorriu de novo.

— Amanhã no almoço você esquenta e me diz se ficou boa.

— Pode deixar.

Carlos comeu o pão com molho, sentindo o sabor da cozinha dela. A lasanha no pote, quentinha ainda. Amanhã ela estaria ainda melhor.

*Continua em: 610 — Como pedir dicas de restaurantes ao recepcionista do hotel?*