O restaurante italiano estava cheio. Velas nas mesas, garrafas de vinho abertas, o som de conversas misturado com ópera baixa no sistema de som. Luísa estava com Carlos, a irmã Clarinha, e mais dois amigos do casal.
A pizza chegou numa bandeja grande. Quatro sabores diferentes. Todo mundo comeu de tudo.
— Essa de gorgonzola é a melhor — Clarinha disse, puxando mais uma fatia.
— A de pepperoni é mais tradicional — o Lucas rebateu.
— Cada um com seu gosto — a Fernanda completou.
Luísa observava a mesa. O jantar ia bem. Vinho, risadas, o garçom trazendo mais uma rodada de cerveja. Mas ela sabia que a conta ia chegar. E quando chegasse, ia ter aquele momento de silêncio constrangedor em que ninguém sabe o que fazer.
Ela decidiu agir antes.
— Gente — ela disse, colocando o copo de vinho na mesa. — Vamos combinar uma coisa.
— O quê? — Clarinha perguntou.
— A conta. Vai chegar. Em vez de todo mundo ficar fazendo cálculo de quem comeu o quê, a gente divide igual e pronto.
— Ótimo — Lucas disse. — Mas eu não bebi vinho, só cerveja.
— Duas cervejas — Fernanda corrigiu. — Eu também só cerveja. O vinho foi vocês quatro.
— Então faz metade do vinho pra cada um que bebeu — Carlos sugeriu.
— Melhor: divide o total por cinco — Luísa disse. — A diferença do vinho é cento e poucos reais. Não vai matar ninguém.
Clarinha abriu a calculadora do celular. o total...
— Mas a Fernanda e o Lucas não comeram sobremesa — Clarinha disse.
— E você comeu duas — Fernanda riu.
— Tá vendo? — Luísa falou. — Fica esse malabarismo. Cinco pessoas, cinco partes iguais. Quem quiser compensar alguma coisa paga a mais por conta própria.
— Justo — Lucas disse.
O garçom chegou com a conta. R$ 412,00.
— Deixa eu passar o cartão e cada um me faz o PIX — Luísa disse.
— Você não precisa pagar a conta inteira — Carlos falou.
— Eu confio em todo mundo. Depois a gente acerta.
Ela passou o cartão na maquininha. Os celulares apitaram um a um com as notificações de PIX. R$ 82,40 cada. Em três minutos estava resolvido.
— Foi fácil — Fernanda disse.
— É que a gente combinou antes — Luísa respondeu.
O Lucas ergueu o copo.
— Pra Luísa, que salvou a gente do cálculo.
— Pra Luísa — os outros repetiram.
Ela riu e bateu o copo contra o deles.
*Continua em: 609 — Como recusar comida na casa de alguém?*