A churrasqueira ainda soltava fumaça. As brasas vermelhas no fundo, restos de gordura pingando e fazendo chiado. A mesa do lado de fora estava coberta de pratos sujos, copos com resto de refrigerante, guardanapos amassados.
— Quanto foi a carne? — Luísa perguntou, baixinho, para Carlos enquanto recolhia os copos.
— Cento e vinte. O Beto comprou a carne, o pai comprou a cerveja, a mãe fez o arroz e a farofa.
— E a gente?
— Trouxe o refrigerante e o gelo.
Ela olhou para o lado. Beto estava na churrasqueira virando o último pedaço de picanha. Clarinha comia num prato no colo, sentada na borda do muro. Dona Lúcia lavava a louça na pia da cozinha, a janela aberta.
— A gente precisava ter ajudado mais — ela disse.
— Ajudamos.
— Não, digo em pagar.
Carlos olhou para ela.
— A família do meu jeito. Cada um traz uma coisa. No final ninguém cobra ninguém.
— Mas não fica desigual?
Ele pensou.
— Fica. Mas ninguém reclama. Meu pai sempre diz que churrasco em família não é restaurante.
Luísa mordeu o lábio. Na família dela era diferente. Cada um pagava sua parte, ou um dividia no final. Mas ali era outro mundo.
— Posso pelo menos ajudar a lavar a louça? — ela perguntou.
Carlos sorriu.
— Se chegar na pia antes da minha mãe falar que não precisa, você ganha pontos.
Ela foi para a cozinha. Dona Lúcia estava com as mãos na água, uma esponja verde esfregando um prato.
— Dona Lúcia, deixa que eu termino.
— Não precisa, filha, já estou quase...
— Por favor. A senhora fez a comida toda. Deixa eu lavar.
Dona Lúcia secou as mãos no avental. Passou a mão no ombro de Luísa.
— Tá bom. Mas faz um café depois?
— Pode deixar.
Ela colocou as mãos na água morna, o cheiro de sabão misturado com o de carne assada que ainda vinha de fora. O barulho da família na varanda. Carlos rindo de alguma coisa que o Beto falou.
*Continua em: 607 — Como dividir a conta do bar com os amigos?*